Foto: Vitória Parise (Diário)
O quarto dia do julgamento dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro começará de forma diferente nesta quinta-feira (2). Antes de retomarem às atividades no Fórum de São Gabriel, os sete jurados seguirão novamente até a localidade de Lava Pé, onde o corpo do jovem foi encontrado submerso em um açude, em agosto de 2022.
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A nova diligência ocorre após a visita realizada na noite de quarta-feira (1º), quando o Conselho de Sentença conheceu o local no escuro para avaliar as condições de visibilidade da área. Desta vez, o objetivo é permitir que os jurados observem, durante o dia, detalhes da barragem e da propriedade rural que não puderam ser visualizados na noite anterior.
Entre os pontos que deverão ser apresentados estão a dimensão da barragem, a localização da propriedade pertencente ao casal Carmem Fontana e Telvi Luiz Fuganti e outros aspectos da área que vêm sendo discutidos ao longo do julgamento. Um dos argumentos da defesa é demonstrar a proximidade entre a residência e o local onde estaria o caseiro citado como parte de sua tese.
A primeira diligência foi solicitada em conjunto pelo Ministério Público e pelas defesas após o encerramento do terceiro dia do Tribunal do Júri.
Durante a visita noturna, um comboio formado por viaturas, veículos das partes, da imprensa e pela van que transportava os jurados percorreu a região. Em um dos momentos, todos os veículos desligaram os faróis para que fosse possível observar as condições de visibilidade do local sem qualquer iluminação artificial.
Segundo informações apresentadas durante o julgamento, na época da morte de Gabriel, em agosto de 2022, nem mesmo o poste de iluminação existente atualmente havia sido instalado, tornando a área ainda mais escura na noite do desaparecimento do jovem.

Pedido da defesa
A diligência foi definida após um pedido do advogado Jean Severo, que atua na defesa dos soldados Raul Veras Pedroso e Cléber Renato Ramos de Lima. Antes do encerramento dos depoimentos de quarta-feira, ele solicitou que o major Magno Siqueira permanecesse à disposição para acompanhar a visita, por ter participado das buscas que localizaram o corpo de Gabriel.
Após uma breve deliberação entre a juíza Liz Grachten, o Ministério Público e as defesas, foi autorizada a ida do júri ao Lava Pé. Apenas magistrada, jurados, partes, servidores e profissionais da imprensa credenciados participaram da diligência. Durante a visita, não foi permitido registrar imagens dos integrantes do Conselho de Sentença.
Visões opostas sobre a importância da diligência
A visita ao Lava Pé é considerada estratégica tanto pela defesa quanto pelo Ministério Público, embora por razões distintas.
Para o advogado Jean Severo, que representa os soldados Raul Veras Pedroso e Cléber Renato Ramos de Lima, a ida dos jurados ao local deve reforçar a tese de que não haveria tempo suficiente para que os policiais tivessem levado o corpo de Gabriel até o açude onde ele foi encontrado.
Segundo o defensor, a distância entre o ponto onde a viatura teria parado e a barragem, somada às características do terreno e à profundidade do açude, sustentaria a versão apresentada pela defesa.
– Quando o jurado vai ao local, ele vai entender que a matemática absolve os réus. O carro ficou parado por um minuto e 44 segundos. O açude fica a cerca de 205 metros, em meio à vegetação, e tem quase três metros de profundidade. Não teria tempo hábil – afirmou.
Jean Severo voltou a defender a hipótese de que um terceiro seria o responsável pela morte de Gabriel. Segundo ele, a diligência também servirá para sustentar a tese de que um caseiro mencionado por um morador da região não teria sido investigado.
O advogado ainda questionou os depoimentos prestados na quarta-feira pelos proprietários da área onde o corpo foi encontrado, Carmem Fontana Fuganti e Telvi Luiz Fuganti. De acordo com a defesa, informações constantes no processo indicariam que o casal esteve na propriedade nos dias 13 e 14 de agosto de 2022, versão contestada pelos dois durante o julgamento.
Já o promotor de Justiça Eugênio Paes Amorim afirmou que a diligência é importante para que os jurados conheçam pessoalmente o cenário onde os fatos ocorreram.
— Alguém já disse que o mapa não é o território. É muito importante conhecer algumas nuances que não aparecem nas fotos aéreas nem nos recursos da informática. O jurado vai poder ver a cerca, o açude, os caminhos e a iluminação diretamente — disse.
Questionado novamente sobre a tese apresentada pela defesa, o promotor voltou a ironizar a hipótese utilizando uma expressão do meio rural.
— O quero-quero, para desviar a atenção dos predadores, canta longe do ninho. É o que faz a defesa, aproveitando que estamos em São Gabriel — afirmou.
Testemunhas: com três dispensadas, faltam duas
Com o encerramento do terceiro dia, após o depoimento do major Magno Siqueira, 15 testemunhas já foram ouvidas. Inicialmente, o rol contava com 20 pessoas, mas três foram dispensadas durante o julgamento, reduzindo o total para 17. A expectativa é de que as duas últimas testemunhas sejam ouvidas ainda nesta quinta-feira (2), antes do interrogatório dos três réus.
Quem já depôs
Acusação
- Rosane Machado Marques – mãe de Gabriel Marques Cavalheiro
- Anderson da Silva Cavalheiro – pai de Gabriel Marques Cavalheiro
- José Soares Bastos – delegado responsável pelo inquérito da Polícia Civil
- Karla de Moura Incerti – tenente-coronel da Brigada Militar e responsável pelo Inquérito Policial Militar (IPM)
- Áureo Felipe Norberto Duarte – perito criminal responsável pela necropsia de Gabriel
Defesa
- Luiz Carlos de Almeida – policial militar da reserva e morador da região onde o corpo foi encontrado
- Railander Alves Barcellos – perito criminal responsável pela análise de vestígios orgânicos na viatura
- Mulher que acionou a Brigada Militar e registrou imagens da abordagem de Gabriel (nome preservado)
- Amiga da testemunha que registrou a abordagem (nome preservado)
- Gerson Vieira de Moura – policial militar que coordenou as buscas por Gabriel
- Carmem Fontana Fuganti – proprietária da área onde o corpo de Gabriel foi encontrado
- Telvi Luiz Fuganti – proprietário da área onde o corpo de Gabriel foi encontrado
- Argileu Nunes de Carvalho – 2º sargento da reserva da Brigada Militar
- Alexandre Rodrigues Pereira – tenente que integrou o Conselho de Disciplina da Brigada Militar responsável por avaliar administrativamente a conduta dos policiais
- Magno Siqueira – major da Brigada Militar que participou das buscas pelo corpo de Gabriel e do Inquérito Policial Militar (IPM)
Relembre o caso
Gabriel havia se mudado de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, para São Gabriel com o objetivo de prestar o serviço militar obrigatório no Exército. Na noite do dia 12 de agosto de 2022, enquanto estava hospedado na residência de um tio no Bairro Divina Providência, o jovem saiu do imóvel para tomar uma cerveja.
Uma moradora das proximidades acionou a Brigada Militar via telefone relatando que um homem desconhecido tentava forçar o portão de acesso à sua propriedade. Conforme o registro da denúncia e imagens gravadas por testemunhas na localidade, os três policiais atenderam a ocorrência, imobilizaram Gabriel e o colocaram no compartimento de transporte da viatura. Relatos coletados durante o inquérito apontaram o uso de golpes de cassetete. Essa foi a última ocasião em que o jovem foi visto com vida.
O corpo de Gabriel foi localizado uma semana depois, em 19 de agosto de 2022, submerso em um açude na região conhecida como Lava Pé, na zona rural do município.
Acompanhe em tempo real
O Grupo Diário realiza, desde a segunda-feira (29), uma cobertura especial do julgamento dos três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro, de 18 anos. A sessão do Tribunal do Júri ocorre no Foro da Comarca de São Gabriel e tem previsão de durar até quatro dias.
Diretamente de São Gabriel, a repórter Vitória Parise acompanha todos os desdobramentos do julgamento, com entradas ao vivo na Rádio CDN (93.5 FM), boletins e atualizações sobre o andamento da sessão, desde a formação do Conselho de Sentença até os depoimentos, interrogatórios, debates entre acusação e defesa e, posteriormente, a leitura da sentença. Clique aqui para conferir as atualizações diárias ao longo da cobertura.