Foto: Beto Albert (Arquivo/Diário)
Santa Maria registrou oito homicídios entre janeiro e junho de 2026 e encerrou o primeiro semestre menos violento desde 2012. O número representa uma queda de 66,7% em relação ao mesmo período do ano passado e é 81,8% inferior ao registrado em 2024, quando o município viveu o semestre mais violento da série histórica.
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O levantamento foi realizado pelo Diário com base nos indicadores criminais da Secretaria da Segurança Pública (SSP-RS) e na cobertura diária da reportagem nos últimos cinco anos.
Número de homicídios no 1º semestre de 2012 a 2026:
O gráfico é interativo. Passe o cursor sobre os pontos para visualizar o número de homicídios registrado em cada ano:
A série histórica evidencia a dimensão da mudança. Nos últimos cinco primeiros semestres acompanhados, Santa Maria registrou 40 homicídios em 2022, caiu para 30 em 2023, atingiu o pico de 44 mortes em 2024 e voltou a recuar para 24 no ano passado. Em 2026, o total chegou a oito, o menor desde o início da período analisado. Em apenas dois anos, o município passou do semestre mais violento da série histórica para registrar o menor número de homicídios desde 2012, quando foram registrados 14.
O comportamento mensal dos registros também chama atenção. Fevereiro terminou sem nenhum homicídio, algo que não ocorria nesse mês havia pelo menos 15 anos. Entre o segundo assassinato do ano, registrado em 13 de janeiro, e o terceiro, em 3 de março, a cidade permaneceu 48 dias completos sem novas mortes violentas. O intervalo superou uma marca de 32 dias sem homicídios, registrada em 2023.
A queda já vinha sendo antecipada pelos levantamentos publicados ao longo do ano. O município havia encerrado tanto o primeiro bimestre quanto o primeiro trimestre com os menores números de homicídios da série recente. O fechamento dos seis meses confirma o movimento.
Redução é resultado de diferentes fatores

Para o delegado Adriano De Rossi, titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a redução dos homicídios é resultado de uma combinação de fatores, principalmente da atuação integrada entre as forças de segurança, o Ministério Público e o Poder Judiciário. Segundo ele, a cooperação entre os órgãos, aliada ao uso de tecnologias como o videomonitoramento urbano, fortaleceu as investigações e contribuiu diretamente para a queda da violência letal.
— Primeiro, a integração entre as forças de segurança, Brigada Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, com cooperação do Ministério Público e Poder Judiciário. Também temos uma cooperação da prefeitura municipal com a questão das câmeras, que ajudam na investigação — afirma.
Na avaliação do delegado, outro fator decisivo foi o enfraquecimento das organizações criminosas. Em fevereiro de 2025, lideranças foram transferidas para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), medida que, segundo ele, rompeu cadeias de comando das facções e dificultou o repasse de ordens a integrantes que permaneciam em liberdade.
Meses depois, a DHPP prendeu duas lideranças da facção apontada como responsável pela maior parte dos homicídios registrados naquele ano. Conforme De Rossi, após essas prisões o grupo deixou de cometer assassinatos em Santa Maria.
O delegado também atribui o resultado ao trabalho investigativo desenvolvido pela delegacia. Em 2025, a delegacia alcançou índice superior a 95% de elucidação dos homicídios e retirou mais de 60 investigados das ruas.
— A partir do momento que tiramos da rua esses indivíduos, primeiro eles deixam de cometer novos homicídios e, segundo, eliminam o risco de revide por parte de facção adversária — explica.
Os reflexos desse cenário também aparecem no perfil da violência registrada em 2026. Conforme levantamento da DHPP, apenas um dos oito homicídios contabilizados no primeiro semestre teve relação com o crime organizado. O delegado destaca ainda que a redução não ficou restrita aos homicídios consumados. Até junho, a cidade contabilizava cerca de 30 tentativas de homicídio, das quais apenas três estavam ligadas a disputas entre facções.
Outra mudança percebida pela polícia está na distribuição geográfica dos crimes. Diferentemente de anos anteriores, quando bairros como Santa Marta, Nova Santa Marta e a região oesteconcentravam boa parte dos homicídios, De Rossi afirma que, em 2026, não há uma região específica que possa ser apontada como principal foco da violência letal. Segundo ele, esse cenário também está relacionado à prisão preventiva de lideranças criminosas que atuavam nessas áreas.
Queda dos homicídios não significa redução da criminalidade

O advogado criminalista e professor universitário Raphael Urbanetto Peres também considera a redução dos homicídios um resultado positivo para Santa Maria. No entanto, ele pondera que o indicador deve ser analisado em conjunto com outras modalidades criminosas e não, isoladamente, como um retrato da segurança pública.
— O fato da diminuição dos homicídios não significa que outros crimes não tenham aumentado. Existem outras frentes de crimes que têm ocorrido, desde a questão dos golpes, que também envolvem grupos criminosos organizados — explica.
Na avaliação de Peres, as organizações criminosas tendem a adaptar sua forma de atuação diante da maior repressão policial, migrando do tráfico de drogas para delitos como golpes e crimes patrimoniais.
Os indicadores da SSP também mostram que, embora os homicídios tenham registrado uma queda histórica, os crimes relacionados ao tráfico de entorpecentes permaneceram em patamar elevado. Furtos e estelionatos, principalmente com idosos sendo vítimas, por sua vez, continuam entre as ocorrências mais frequentes no município.
Como o Diário fez o levantamento
A reportagem compilou os indicadores criminais mensais disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) para comparar a evolução das mortes violentas registradas no primeiro semestre ao longo dos anos.
A série histórica inicia em 2012, quando a SSP-RS passou a divulgar, de forma padronizada, o número de vítimas de homicídio doloso, separado do número de ocorrências. A mudança permitiu comparar os períodos com maior precisão, já que uma única ocorrência pode envolver mais de uma vítima.
Para este levantamento, foram consideradas todas as vítimas de homicídio doloso — categoria que engloba, entre outros casos, os feminicídios —, além das vítimas de latrocínio e de lesão corporal seguida de morte. Embora esses crimes possuam enquadramentos jurídicos distintos, o latrocínio é classificado como crime contra o patrimônio e a lesão corporal seguida de morte possui tipificação própria no Código Penal, todos resultam em morte, por isso, costumam integrar análises sobre violência letal.
Entre 2012 e 2021, foram utilizados os dados oficiais disponibilizados pela SSP-RS. Já para o período de 2022 a 2026, a comparação utiliza o levantamento próprio realizado pelo Diário, elaborado a partir da cobertura diária dos casos registrados no município. A opção foi adotada para manter a uniformidade metodológica da série recente e porque os indicadores oficiais de 2026 ainda podem passar por atualização.