Foto: Vinicius Becker (Diário)
Enquanto Santa Maria registra uma queda expressiva nos indicadores de violência, a situação na Quarta Colônia segue no sentido oposto e preocupa as forças de segurança. A avaliação é do delegado regional Sandro Meinerz, que participou do programa Bom Dia, Cidade, nesta terça-feira (15), e analisou os dois cenários.
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Em Santa Maria, o delegado destacou a redução expressiva dos homicídios. O município chegou a setembro com nove mortes desse tipo, enquanto, no fim de agosto de 2024, já contabilizava 58. No mesmo período de 2025, eram 31 casos. Segundo Meinerz, os números são resultado de operações, investigações, inteligência policial e da integração entre diferentes instituições de segurança.
— Foi objeto de muito trabalho, foi objeto de muita análise, foi objeto de muita operação, de investigação, de muita inteligência policial, para que nós pudéssemos ter hoje esse cenário de Santa Maria, um cenário altamente favorável. A gente não gostaria que tivesse nenhuma morte, mas a gente sabe que isso é um cenário impossível de ser atingido — afirma.
Atualmente, Santa Maria alcançou 55 dias consecutivos sem homicídios, a maior sequência identificada pelo Diário nos últimos cinco anos.
Além disso, o delegado também ressaltou que a redução não aparece apenas nos homicídios, mas em outros indicadores de criminalidade.
— É uma queda que a gente diz que supera os 71% no comparativo. Isso é um número que foi conquistado com muito trabalho. Mas é importante dizer que não é só esse indicador que caiu em Santa Maria. A gente teve queda do roubo a pedestres, queda do roubo a residência, roubo de veículo, roubo a estabelecimento comercial — destaca.
Integração e tecnologia
Entre os fatores apontados pelo delegado está o trabalho integrado entre as forças de segurança. Os índices são analisados periodicamente em reuniões que envolvem Polícia Civil, Brigada Militar, Polícia Penal, Instituto-Geral de Perícias, Corpo de Bombeiros, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Ministério Público, Judiciário e estruturas municipais de segurança.
Meinerz também destacou a importância do Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp). Para ele, o videomonitoramento auxilia tanto na prevenção quanto na investigação dos crimes, ao permitir uma resposta mais rápida e o rastreamento de pessoas e veículos.
— O Ciosp hoje se concretiza em um modelo de grande integração e se caracteriza como um instrumento de inibição e prevenção à criminalidade. A gente vai ter uma ampliação muito expressiva do número de câmeras em Santa Maria. Se hoje já está sendo inibidor, vai melhorar muito mais. E, para nós, essa questão das câmeras, da rápida resposta que a gente consegue dar, do rastreamento de pessoas e veículos, é fundamental para os resultados que estamos alcançando. Então, esse somatório de fatores, o diálogo, a integração, as ações conjuntas e a ferramenta tecnológica, é muito importante para nós hoje como ferramenta investigativa — explica Meinerz.
Cenário diferente na Quarta Colônia
Se os números de Santa Maria são motivo de comemoração, a Quarta Colônia atravessa, segundo Meinerz, um momento delicado. O delegado afirma que o aumento da violência na região não começou agora e vem sendo percebido gradualmente nos últimos dois ou três anos, principalmente em relação aos homicídios.
Segundo ele, municípios que historicamente apresentavam poucos episódios de violência letal passaram a registrar crimes com características diferentes. Entre as cidades citadas estão Agudo, Faxinal do Soturno, São João do Polêsine, Nova Palma, Dona Francisca e Restinga Sêca.
A Polícia Civil relaciona parte desse cenário à atuação de grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas. Meinerz lembrou que, no ano passado, uma grande operação policial retirou de circulação 62 pessoas e, segundo ele, desarticulou uma estrutura criminosa que atuava na região. Meses depois, uma decisão judicial anulou medidas que haviam subsidiado a investigação e parte dos envolvidos voltou às ruas.
Conforme o delegado, depois disso se intensificou uma disputa entre dois grupos criminosos.
— Nós temos hoje claramente definido um conflito entre dois grupos. Nós temos homicídio em Faxinal do Soturno, temos três homicídios já relacionados a esse conflito em Agudo, temos um duplo homicídio em Dona Francisca, temos tentativas de homicídio em Nova Palma, em Faxinal e Agudo. Quer dizer, é uma situação que não é comum para aquela região — relata.
Meinerz citou como exemplo o duplo homicídio de Dona Francisca. Conforme o delegado, pessoas envolvidas na execução não seriam da Quarta Colônia, mas da Região Metropolitana. Em outro caso investigado em Agudo, a autoria apontada pela polícia seria de um homem de Alvorada.
— Isso mostra a característica de grupo criminoso organizado. Quer dizer, tem um grupo criminoso, uma facção, que está praticando esse tipo de delito e traz “soldados”, ou seja, pessoas que trabalham para esse grupo criminoso de outras regiões do Estado para executarem esses crimes e depois voltarem para os seus locais de origem — explica.
Além dos crimes contra a vida, incêndios criminosos em residências e pichações também passaram a integrar o cenário investigado pelas forças de segurança. Segundo Meinerz, esses episódios estariam relacionados à disputa territorial entre os grupos.
Polícia prevê que controle da situação levará tempo
Diante do aumento da violência, Polícia Civil e Brigada Militar têm adotado estratégias específicas para a região.
— A polícia tem trabalhado muito. Nós temos trabalhado em conjunto com a Brigada Militar em muitas questões, trocado informações, nos reunido para tratar sobre isso. As inteligências estão trabalhando incessantemente. A gente já criou alguns tipos de estratégias de reforço para as delegacias daquela região. A Brigada intensificou o policiamento ostensivo-preventivo. Enfim, muitas ações foram feitas, muitas pessoas foram presas já por porte de arma, por tráfico de drogas e até pelo envolvimento nos homicídios, mas é realmente um cenário que preocupa e que vai precisar de um pouco de tempo para que a gente consiga controlar essa situação — afirma.
Apesar das ações, o delegado avalia que a retomada de um cenário de maior tranquilidade não deverá ser imediata.
— Eu acredito que na Quarta Colônia ainda vai demorar um pouco, mas a polícia tem trabalhado muito. Nós, da Polícia Civil, trabalhamos muito silenciosamente. O nosso trabalho é ostensivo em alguns momentos, mas grande parte das nossas ações não é vista pela população. E esse é o objetivo, para que a gente possa controlar esse cenário novamente. Infelizmente, uma decisão judicial, tomada por critérios jurídicos dos quais eu tenho as minhas discordâncias, trouxe um prejuízo que não tem preço para essa região, que está pagando. Algumas pessoas, inclusive, estão pagando com a vida. Quem está morrendo nesses conflitos são pessoas envolvidas com o tráfico de drogas e com os grupos criminosos, seja porque trocaram de lado, enganaram alguém ou estão em um território que os outros acham que pertence a eles. Isso trouxe os homicídios e também incêndios de casas, algo que nunca havia acontecido naquela região, além de pichações e outras situações relacionadas à disputa territorial entre esses grupos criminosos organizados. Estamos comemorando Santa Maria, mas preocupados, muito preocupados com a Quarta Colônia. Acredito que, em algum momento, vamos voltar a uma certa normalidade lá — afirma Meinerz.
Ao encerrar a entrevista, Meinerz disse:
— Comemorando Santa Maria, mas preocupados, muito preocupados com a Quarta Colônia.
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