Professor de Direito Constitucional explica por que STF não decidiu sobre investigação de Alexandre de Moraes

Professor de Direito Constitucional explica por que STF não decidiu sobre investigação de Alexandre de Moraes

Foto: Alejandro Zambrana/STF (Divulgação)

A sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) realizada na terça-feira (15) terminou sem uma decisão sobre a possibilidade de abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. Para o professor de Direito Constitucional da Universidade Franciscana (UFN) Fabrício Aita, entrevistado pelo Bom Dia, Cidade!, da Rádio CDN 93.5 FM, o que esteve em discussão foi uma questão processual, e não o mérito de uma eventual investigação.

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Segundo Aita, antes de analisar se a investigação contra Moraes deveria ou não ser autorizada, os ministros precisavam decidir se o caso seria analisado de forma separada ou conjuntamente com o pedido envolvendo o ministro André Mendonça.

– Na verdade, a questão ontem dizia respeito tão somente ao ministro Alexandre – explicou o professor durante a entrevista.


Questão de ordem interrompe análise

A discussão começou a partir de uma questão de ordem apresentada antes da análise da autorização para investigar Moraes. A ideia era definir se os pedidos relacionados aos dois ministros deveriam tramitar juntos ou separadamente.

Na sessão, três ministros — Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes — votaram pela análise conjunta dos casos. Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram pela tramitação separada. O ministro Flávio Dino pediu vista, interrompendo o julgamento. Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli não participaram da votação.

Para Aita, isso significa que o STF ainda não chegou à discussão sobre a eventual existência de crime envolvendo Moraes.

– Não está se discutindo nenhuma questão em relação à eventual participação do ministro Alexandre em qualquer tipo de crime. Ele não é sequer réu de nenhum processo – afirmou.

O professor destacou que, neste momento, a discussão está relacionada à possibilidade de a investigação ser autorizada e, antes disso, à forma como o pedido será analisado.

– É uma questão meramente procedimental. Não é nada de mérito. Na verdade, o mérito é a autorização para investigar – explicou.


Pedido de vista pode adiar nova análise

Com o pedido de vista de Flávio Dino, o julgamento foi suspenso. O professor explicou que, pelo regimento, o prazo para análise é de até 90 dias, com possibilidade de prorrogação em situações excepcionais.

A avaliação de Aita é que a suspensão também dificulta o avanço de outros pedidos relacionados ao caso enquanto a situação envolvendo Moraes não for definida.

– Enquanto não se resolver essa questão do ministro Alexandre, eu acho muito pouco provável que avancemos em qualquer outro pedido de autorização para investigar outro ministro – afirmou.

O STF já marcou para 23 de setembro uma nova sessão relacionada ao caso de André Mendonça, mas, na avaliação do professor, a situação envolvendo Moraes pode interferir na sequência dos julgamentos.


Professor vê situação incomum no STF

Outro ponto destacado por Aita foi a participação de ministros diretamente relacionados às discussões. Para ele, Moraes e Mendonça poderiam ter se declarado suspeitos na análise.

– Me parece que os dois poderiam ter se dado por suspeitos – afirmou.

O professor também chamou atenção para a presença, durante a sessão, de outras questões envolvendo ministros e seus familiares citados no contexto do caso Banco Master.

A sessão de terça-feira foi marcada por fortes discussões entre integrantes da Corte. Durante o julgamento, ministros trocaram acusações e fizeram críticas duras entre si. A ministra Cármen Lúcia chegou a afirmar que se sentia envergonhada com o episódio.

Aita descreve o ambiente como preocupante justamente por envolver a principal Corte do país em matéria constitucional.

É constrangedor. Nós estamos falando da nossa principal corte em matéria constitucional – declarou.

Segundo o professor, episódios como esse também reforçam a discussão sobre mecanismos de fiscalização do Poder Judiciário.


“Todos nós devemos ser investigados”, diz professor

Questionado sobre quais ministros deveriam ser investigados caso existam denúncias ou indícios, Aita defendeu que a possibilidade deve valer para qualquer pessoa, inclusive integrantes do STF.

– Todos nós somos e, num Estado Democrático de Direito, todos nós devemos ser investigados à medida que existe uma denúncia – disse.

Ele ressaltou, porém, que os ministros eventualmente investigados também devem ter assegurados os direitos constitucionais.

– Os direitos constitucionais daquele que está sendo investigado devem ser colocados também em primeiro lugar – afirmou.

Para o professor, caso existam indícios ou denúncias envolvendo ministros, eles próprios não deveriam participar das decisões relacionadas à abertura de investigação contra si.

– Se existem indícios de que o ministro Alexandre, o ministro André, o ministro Luiz Fux, o ministro Dias Toffoli, o ministro Gilmar, qualquer um dos ministros que haja alguma suspeita em relação, eu entendo que eles mesmos deveriam se dar por suspeitos e não participar de qualquer votação no que diz respeito a seguir ou não a investigação – declarou.

Aita também afirmou que a análise sobre a eventual abertura de investigação deve seguir os mecanismos institucionais e que, caso ela avance, Alexandre de Moraes deverá ter garantidos o contraditório e a ampla defesa.

O julgamento de terça-feira, portanto, terminou sem uma decisão sobre a autorização da investigação contra MoraesO pedido de vista de Flávio Dino suspendeu a análise e deixou para uma etapa posterior a definição sobre como os pedidos relacionados aos ministros deverão tramitar.


Confira a entrevista completa:

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