O dia estava enfarruscado, como se diz aqui no Sul. Fazia frio em Santa Maria. Eu só conhecia uma viva alma daquelas mais de 50 que ocupavam o galpão nos fundos da empresa: Marcos Kirst, até então colega do Pioneiro.
Se fora a temperatura era baixa, dentro estava quente. Cumprimentos tímidos e expectativa lá em cima. Nilson Vargas, o condutor da nau, apresentava as pessoas junto com o projeto, página a página, nome a nome. Aquilo deu o tom não só do que seria a novidade, mas do que se tornaria o ambiente e de qual seria o tamanho da responsabilidade daqueles jornalistas.
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Era o primeiro dia da redação do Diário de Santa Maria. O primeiro jornal do grupo com internet em cada computador e com todas as máquinas fotográficas digitais. Era maio de 2002.
Assistia a tudo de posição privilegiada. Ensinaria aos jornalistas os softwares de edição e diagramação. Trabalho de 30 dias. Depois, era voltar a Caxias do Sul e acompanhar, de longe, o progresso do irmão mais novo.
Esse era o planejamento. Os 30 dias se multiplicaram por três e acabaram somando 4.901. Durante 13 anos, fui treinadora, editora-executiva e editora-chefe. Aprendi sobre a cidade, sobre política e economia. Aprendi a escrever editoriais, corrigir páginas, escolher e fazer manchetes, liderar uma redação e sobretudo tomar inúmeras decisões sob pressão e escrutínio público. Aprendi, essencialmente, a ouvir antes de decidir. E arcar com as decisões, minhas e do meu time.
Entendi o valor da amizade, morando sozinha até conhecer meu marido e, mais tarde, com ele ter uma filha, ambos santa-marienses. Aqui também me tornei professora universitária na UFN.
Cobri grandes processos da Justiça Estadual, como o esquartejamento de uma mãe, e da Justiça Federal, como a Operação Rodin. E aquilo que, olhando hoje, dá para considerar o início de uma longa experiência com a cobertura de tragédias climáticas: o granizo que destruiu todos os telhados de Itaara, inclusive o da minha casa, e a queda da ponte do Jacuí, que levou cinco vidas. Mais tarde, vi a pior das tragédias, o incêndio na Kiss, que levou 242 filhos 11 dias após o nascimento da minha, a Helena.
Apesar dos dias difíceis, o Diário foi o melhor ambiente de trabalho no qual já vivi e um dos maiores aprendizados da minha carreira. Onze anos depois de partir, volto a conversar com vocês, por um convite da Sione Gomes, da Fabiana Sparremberger e do Paulo Ceccim.
Em 31 anos de Redação, vi a história, acompanhei seus desdobramentos e, muitas vezes, vi também quem sobreviveu, como saiu e o preço que pagou. Hoje, continuo fazendo perguntas. Só que a partir de outra perspectiva.
Como consultora em inteligência reputacional, trabalho no espaço anterior à narrativa: ouvir (sempre) e medir a reputação, ler o cenário, conectar as pontas, compreender o que está em jogo e ajudar líderes a tomarem as melhores decisões antes de comunicar.
Volto ao Diário para falar da cidade que conheci, da que mudou, mas, principalmente, para conversar com vocês sobre a cidade que Santa Maria ainda pode se tornar.